domingo, julho 30, 2006

Homem Feito



Sou homem feito,
feito de vida e de morte,
de alegria e de angústia
e levo em mim
os opostos que se fazem
no cotidiano mais comum
da rotina.
Sou homem feito,
feito do novo e do velho
do atual e do antigo,
e, sempre que posso,
renovo minhas opiniões corriqueiras,
pra que se enquadrem verdadeiras
neste mundo de hipocrisias.
Sou homem feito,
feito de sorte e de azar,
de horas e minutos
e guardo comigo
a leve impressão
de que o tempo passa
e que de jeito nenhum consigo
fazê-lo parar,
mas mesmo assim respiro.
Sou homem feito,
feito do belo e do horrível
de paz e de guerra
e cismo em dizer
que sou adulto
porque sou homem feito,
mas no fundo,
sou a criança
que chora no leito
por não saber amar.

quinta-feira, julho 27, 2006

Diálogo Sobre a Continuidade Intermitentes

- O intermitentes jamais teve pretensão alguma!
- Mas que seria de ti, ó escritor, se não houvessem olhos e mentes que discorressem sobre teu produto? Assim como não se chama de autor aquele que propriamente não é dono de nenhuma obra e nem de coveiro aquele que não desenterra o chão pra entrada dos mortos, não se chama escritor aquele que dentro de si guarda suas próprias palavras...
- Que a arte é arte quando se manifesta, disso eu sei. Mas não me deixaria escritor por não haver alma que não me lesse. Afinal, o intermitentes nunca teve esse pressuposto: o de viver da compulsão alheia!
- Estás a resignar aqueles que vêm aqui?
- É claro que não.
- Então confessa que estás nutrindo teu próprio ego com isso tudo.
- Estou e não estou. Se amanhã pararem de vir pra cá todos eles, continuarei copiosamente a expulsar de mim velhos demônios literários. Não que me sejam demônios, não são...
- E continuarias mesmo sem haver oxigênio, uma lufada lúgubre de interesse naquilo que rediges?
- Sim.
- És um egoísta e, além de tudo, um grande mentiroso.

segunda-feira, julho 24, 2006

Jung e Memórias

"Vi muitas vezes que os homens ficam neuróticos quando se contentam com respostas insuficientes ou falsas às questões da vida. Procuram situação, casamento, reputação, sucesso exterior e dinheiro; mas permanecem neuróticos e infelizes, mesmo quando atingem o que buscavam. Essas pessoas sofrem, freqüentemente, de uma grande limitação do espírito. Sua vida não tem conteúdo suficiente, não tem sentido. Quando podem expandir-se numa personalidade mais vasta, a neurose em geral, cessa. Por esse motivo a idéia de desenvolvimento, de evolução tem desde o início, segundo me parece, a maior importância" - C.F. Jung

O livro do Jung é tão legal, tem tanta coisa bacana, que não dá vontade de parar de ler. Discorre sobre temas e reflete a condição do homem como ser espiritual, dispondo inclusive, de uma resposta pro tão obsessivo pensamento-libido de Freud. Só não consegui sonhar ainda. Mas acho que vai depender do meu encontro com o inconsciente.

domingo, julho 23, 2006

Juiz de Fora se repete, intermitente...

Por alguma razão, não me senti bem em Juiz de Fora. Não pelas pessoas que me cercavam, que, dentro de todas as possibilidades, mais me pareciam artistas maravilhosos que fincavam seus instrumentos no chão de pedra da escola-academia e ficavam ali, por horas e horas, a la recherche du temp perdu, em busca da nota perfeita, da tradução epistemológica do sentido musical-humano. E coube a mim uma pequena parte, em meio ao todo, um tenor a esgoelar-se nas agudíssimas do "cum sancto spiriti". Era preciso me concentrar pra que tantos glorias, amens e spiritis pudessem me dizer algo que a tão descaracterizada Juiz de Fora não conseguia. A verdade é que busquei um ritmo diferente deste que tenho no Rio de Janeiro e não encontrei. É tão parecida com a minha cidade que até as ruas principais recebem o mesmo nome. Troquei seis por meia dúzia e ainda pagava hotel pra isso. Mas, apesar de todo aquele frio, de toda aquela angústia, descobri que me devia questionar sobre o presente que deveria eu dar ao mundo e não o que deveria retirar dele pra minha própria satisfação. O que exigia uma certa mudança de referencial era bastante descaracterístico do homem em si, mas tenho certeza de que já tenho a resposta.

quinta-feira, julho 20, 2006

Viagem-encontro

É corrida pra pegar as malas. Sempre a gente esquece alguma coisa. Até então tá tudo certo: lacrados os produtos de higiene, sabão, escova...meia pra dormir. Faz frio em Juiz de Fora. Despeço-me, como sempre, já com saudades do Rio de Janeiro. Nâo tenho amores doentes por essa cidade, mas por essa gente...vou levar folha em branco pra fazer anotações; lápis de cor, lápis pastel e esfumaçador, deixarei no Rio apenas meu amor. Ouço ao fundo Good Bye Yellow Brick Road e sinto uma vontade rasteira de chorar. As coisas deram certo e errado, e viajo, não pra esquecer, mas pra lembrar de tudo. É preciso um tempo certeiro pra investir em si mesmo, o cotidiano afasta lentamente esse encontro. Tanto tempo deste ano minha vida resumiu a "trabalho-faculdade-casa" que cansei deste trinômio...particularmente ainda acho que qualquer focalização é inválida e distanciadora [um trabalho dispersador das culturas...], mas concordo que só ela pode fazer com que cheguemos a algum lugar. A música de fundo já não é mais a mesma. É uma coisinha alegre com tambor de maracatu. Essa viagem é um encontro que venho adiando há tempos.

sábado, julho 15, 2006

Dicionário da Origem das Palavras

Eu andei caçando algo do tipo nesses meses. E tem muito a ver com a minha obsessão crescente na origem das coisas; muito sobre o que li em Jung, da questão de um inconsciente coletivo, como se pertencêssemos todos, sem exceção; sobre meu ligamento com as palavras, diria até maior do que me mantém preso aos números. Se você esmiuçar os olhos pela faculdade, vai me encontrar ali, escondidinho, não fazendo contas, mas tentando a todo custo traduzir tudo que sei em números para as palavras cotidianas. Sinto-me por vez, atormentado; são como as diversas forças naturais que interagem entre si, mas são independentes, imiscíveis como água e óleo. Portanto, embora eu saiba interpretar divisões, teoremas e multiplicações, parece que falta algo que não consigo concatenar. Essa essência das coisas é que me faz pensar que no fundo não sei nada, apenas decoro milhares de leis e a isso chamo de conhecimento, o que me transforma n'algum tipo de analfabeto funcional, capaz de compreender como, mas não por quê. Como percebo, cada vez que mais estudo, que tudo se interliga, as idéias são plenas permutações e mudanças de linguagem de uma mesma essência comecei a investigar a origem das manifestações humanas pra ver de onde brotaram os comportamentos. Obviamente que me veio parar a questão do nome. Qualquer um que já estudou alguma língua declinável (latim, russo, alemão...) sabe que o nominativo é o primeiro a se estudar, não por razões estúpidas, como já até mesmo dizia a bíblia: o nome, depois o verbo! Por estas razões comecei a me entreter procurando comprar um dicionário da origem das palavras, o famoso etimológico. Achei Mattoso Câmara que, pro meu desgosto, não se deve mais publicar. E o Houaiss foi a grande resposta pros meus momentos de tristeza...é, nisso de se atormentar quase não sobra tempo na vida cotidiana. E cá estou eu, procurando saber o que todo mundo me questionaria pra quê...

sexta-feira, julho 14, 2006

Saudades de mim

Se meu poema fosse musical,
eu cantaria bem alto
a distância que nos separa,
e dela faria ato principal
de uma peça sem começo ou fim,
pra que soubessem, todos,
da saudade que sentes de mim.

quarta-feira, julho 12, 2006

Fatos de um Dia Intermitente

Tu és o beijo que guardei. E, como vou-me hoje, assim pra longe, pra lá, não esconderei que nestes dias em que te vi, corpo mesmo, rosto mesmo, boca mesma, ainda tive a vontade de me entregar pra descobrir que nunca te beijei, mas é como se fosse beijo o abraço que te dei . Não, Marcelo, não seja cafona! Não rime pão com chão, ou mel com céu! Não há nada de substancial na breguice. O bardo não precisa de rimas, mas de fatos.

sábado, julho 08, 2006

Todo carnaval tem seu fim

...aí eu fiz das suas minhas palavras e bati palmas no final da cena. Desceram-se as cortinas do meu sonho, esvaziaram as poltronas do teatro e a peça acabou. Voltou-se, então, ao cotidiano normal da razão.
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"Por muito tempo achamos que seguimos nossas próprias idéias até descobrirmos que somos simples coadjuvantes no palco do teatro universal." C.Young.

quinta-feira, julho 06, 2006

A cor azul

Azul é a cor do pensamento que te guardo. Também é cor de céu quando o feixe de sol incide quase perpendicular. Azul é cor de mar, quando não reflete em si as impurezas alotrópicas dos átomos. É a cor do meu beijo, a cor do anseio que tenho. Meu quarto feito de azulejos e de espelhos me encerra, com meu pensamento azul, voltado em ti, incipiente. Inócuo, tu te adentras, no ensejo de roubar-me aquilo que te guardo, escondido. Eu te observo silencioso, no teu ato que fracassará em alguns segundos.